quarta-feira, maio 03, 2006

Lisboa sempre choras



Hoje fui ver um filme marcante, Lisboetas de Sérgio Trefaut, uma pessoa pensa que sabe, mas não sabe, um documentário como este devia ter muito mais visibilidade do que apenas uma sala em Lisboa.

Lisboetas é um documentário totalmente passado em Lisboa em zonas por onde passo todos os dias, todas as semanas e certamente todos os meses. Uma fila de gente por onde passo mais ou menos indiferente com uma piada ou outra sobre a capacidade dos serviços públicos, passou agora a significar outra coisa, e mesmo quando consciente sei da dificuldade dos emigrantes, e já vi, entristecido, vários emigrantes a caírem em cima do lixo de um super mercado no campo pequeno, não sei nada deles, do seu desespero pessoal, de que como cada um tem uma história, e cada um terá outra história depois.

Uma vez num jantar de uma amiga, uma senhora mais velha que trabalhava no aeroporto dizia-me preocupada, mas como um facto da super interessante se tratasse, que os emigrantes do leste voltavam a casa mais depressa num caixão após serem atropelados do que numa camioneta tal como vieram…

Os Lisboetas… a minha cidade é um caldeirão, sempre foi desde os tempos dos descobrimentos, talvez até ainda atrás. Lisboa sempre teve histórias de poucos sucessos e de muitas tristezas, por vezes até de desgraças e massacres. Hoje em dia passa por um processo de transformação, mais um, inevitável, e o que fazer? Repudiá-lo? Abraça-lo sem olhar a nada? Preferia pensar na última, a verdade é que este país e esta cidade em especial não tem capacidade para resolver nada a praticamente ninguém. E se é para mim uma vitória saber que a minha cidade ajudou alguém, é uma maior derrota saber que na sua maioria Lisboa não ajuda nada.

Houve dois momentos marcantes no filme, duas expressões que me vão assombrar durante uns tempos, a do guiniense que não entendia a mulher da emigração e o antigo piloto das forças armadas da união soviética que totalmente destruído, sem um indicio no corpo, postura ou presença que fizesse adivinhar que tinha sido militar, tentava descobrir se tinha um pé partido…

Lisboa sempre choras
De sangue salpicado em terras distantes

Miguel Bordalo

2 Comments:

At 2:22 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Pois andre acho que esqueceste daqueles trabalhadores da construção civil, cidadaos do leste, portugueses e brasileiros, que dividiam um contentor e tomavam banho na mangueira da bomba da gasolina.
E digo-vos que lisboa de facto nao resolve o problema a ninguem, façam uma tur pelos bairros sociaise de seguida aos bairros finos de lisboa e logo percebem.. que isto tudo é politica

 
At 7:28 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Vi a apresentação do filme na semana passada, e fiquei curiosa.
Habituámos-nos a sermos nós os que vão para fora, e apesar da estória da "cauda da Europa", o país é apelativo para muita gente de outras nacionalidades. Claro que todos sabemos isto, e ouvimos brasileiros e ucranianos nas ruas, mas não nos lembramos do resto. Ainda bem que há gente a lançar mãos à obra para nos mostrar esse outro lado.

Quando vi a apresentação também me recordei de quando tive de me legalizar em Espanha. Apesar dos privilégios - habitante da UE e estudante universitária - o tratamento que me deram foi o de pessoa de 2ªcategoria, como se por não ser espanhola, fosse inferior. Lembro-me de ter olhado para a enorme fila dos cidadãos de fora da UE, e de ter pensado que, se comigo era assim, às tantas com eles era ainda pior. É humilhante e desencorajador.

O que realmente é estranho, apesar dos países quererem gente para turismo, talvez em todos seja mais ou menos igual, quem chega para ficar é de segunda, desata tudo a ficar nacionalista, que estranho não é.

 

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